quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entrevista com Rogério Gerardi, o Jason Vorhees de luvas

Rogério "Jason Vorhees" Gerardi / (Foto: Divulgação)

Rogério Gerardi, 40, teve a ascensão de sua carreira após ser vítima de violência urbana seguida de acidente automobilístico no ano de 2008. Ficou em coma, não perdeu só os melhores anos de sua vida, mas também "amigos".

Sua recuperação se deu com o apoio nos filhos, mas Gerardi não era mais um boxeador comum, incorporou o personagem de cinema Jason Vorhees. Depois se tornou personal trainer do empresário Álvaro Garnero e hoje tem como técnico Adailton "Precipício" de Jesus junto com o cinturão brasileiro da Liga Paulista de Boxe. Em entrevista ao Córner, Gerardi, ou Vorhees como é mais chamado fala de suas experiências.

Como foi seu início no boxe profissional?


Meu inicio no boxe profissional, não pode ser citado sem meu começo no boxe amador em 1985, no Centro Olimpico de Treinamento e Pesquisa, meu treinador era Luiz Carlos Fabre. Treinei, aprendi e estreei no amador pelo Centro Olimpico. Fiquei até 1990, mais éra jovem só fazia isso e sem grana pra continuar tive que sair por um tempo. Fui trabalhar para sobreviver, já em 2004 mais maduro, e com uma vida profissional estável voltei para o boxe, porém foi como se eu estivesse congelado por décadas. Quando voltei o boxe não existia mais CMTC clube, os grandes daquela época não lutavam mais, nomes como Chiquinho de Jesus, Thomas da Cruz, Helio Santana e tantos outros, amigos que já tinham parado de lutar, na verdade o único que continuava, porém próximo do fim da carreira, era meu parceiro Peter Venâncio que ainda deu uma amostra do que é o verdadeiro e belo boxe ao vencer Mário Soares, o Marinho.

Retornei aos treinos, pois não apresentava sequelas, condicionamento à mil, porém uma coisa tinha que mudar, era como se não existisse mais espaço para mim no boxe amador. , procurei varios dirigentes de boxe mais ninguém se interessava, pois era um "velho" de 30 e poucos anos. Então Rogério Lobo, de quem tenho muitas saudades, me ajudou a fazer  minha primeira luta profissional, desde lá venho com minhas próprias forças tentando um espaço e mostrar a todos que só sou velho na idade.

Em 2008, você foi vítima de tentativa de assalto e acabou sofrendo um acidente automobilístico. O que passou por sua cabeça naqueles instantes? 

Quando sofri a tentativa de assalto, não tive muito tempo de pensar, vi uma distração do assaltante, e arranquei com o carro, eles me perseguiram, e atiraram, nenhum tiro me acertou, graças à Deus, mas na tentativa de fugir em "zig-zag", um dos tiros acertou o carro e o mesmo capotou algumas vezes. 

"... luto boxe porque ainda acredito nesta nobre arte, só queria que fosse mais justo" - Rogério Gerardi, o "Jason Vorhees".

Após este evento foram três meses em coma. Como foi a readaptação a vida?

A Readaptação foi muito difícil, infelizmente antes do acidente pela minha boa qualidade de vida, ostentei muito fora da minha realidade... carro zero, pick-up importada, aluguei casa com piscina de alto padrão, os melhores restaurantes, ou seja,vivia como playboy. Após o acidente, vi que perdi tudo o que tinha, mal tinha dinheiro pra comprar um cartão telefônico.

Perdi os movimentos do braço, porque o mesmo foi fraturado em três lugares, e perdi o cotovelo. Para ir ao banheiro precisava de ajuda, pra tomar banho precisava de ajuda, chorava dia e noite, não tinha paciência com nada, a pessoa que vivia comigo, e eu dava vida de princesa, me traíu e me abandonou, sem saúde,sem dinheiro, sem trabalho, e sem mulher... (respira) foi foda. Só por Deus tô aqui hoje.

Você se arrepende das tentativas de suicídio?

Sim, me arrependo das tentativas de suicídio. Foram exatamente, na época de turbulência, onde não via, saída pra nada, perdi o tesão pela vida, na quele momento era indiferente continuar ou não. 

Samuel e Gabriela Gerardi / (Foto: Arquivo Pessoal)

Como foi o apoio do seu filho nestes anos?

Na verdade sobre os meus filhos tenho um casal, a Gabriela e o Samuel. Foram fundamentais, pensei muito neles, que se eu morresse eles iriam pagar um preço muito caro por algo, que não tinham culpa, tive também, muita ajuda e amigos que me aconselhavam a não fazer nenhuma besteira, porque estava disposto a morrer ou a ir preso, para mim era indiferente e o que importava era minha neurose passar.

Álvaro Garnero (esq.) e Rogério Gerardi (dir.) / (Foto: Arquivo Pessoal)

E o trabalho com Álvaro Garnero quais rendimentos trouxe para você além do financeiro?

Foi como eu disse na matéria da Record, o Álvaro é amigo e não patrão, vou na casa dele dar aulas de boxe, às vezes treino por lá mesmo, almoço e passo o dia. Infelizmente pessoas olham pra ele como uma oportunidade, eu só faço meu trabalho, e ofereço a minha amizade, porque não tenho nada a oferecer, e eu acho que é isso que nos liga tanto, também ensino boxe a sua esposa (Christiana Archangeli), e MMA ao seu filho, ou seja, procuro ser profissional no que faço, mas como ele é muito família e humilde acabo me sentindo em casa. 

Os "amigos" que voltaram no momento de tristeza o procuraram agora em seu retorno sendo que você aparece na mídia?

Não! Graças à Deus sumiu todo mundo, quero fazer novos amigos, você sabe que infelizmente, é como diz a musica "vermes e leões no mesmo ecossistema". Nesta fase que vivo apareceu muita gente boa, mas os aproveitadores vem junto também, porém desta vez estou adotando um novo processo seletivo (risos). 

E no boxe como é lutar com seu "novo" braço esquerdo? 

Normal, sinto dores quando o tempo muda, entretanto no geral ele está até melhor que o que não sofreu nada tive que readaptar me estilo de luta mais nada muito diferente.

Quem no Brasil você gostaria de enfrentar?
 
Gostaria de aproveitar esse espaço para dizer que tenho 40 anos, porém não estou morto! Tenho saúde, vitalidade, disposição e tenho sonho como todos! Lutei dez Rounds com o respeitadíssimo Daniel santos, e agora quero a oportunidade de disputar o título latino, se preciso desço de categoria, mas quero uma chance porque, acho uma vergonha, o que estão fazendo comigo. sujaram meu cartél,me colocando uma segunda derrota contra Jefferson Gonçalo, sendo que lutei com ele uma vez só. Olham para mim, como se eu estivesse aqui para ser escada dos outro, quero uma chance, sou atleta profissional, se eu não conseguir aqui vou para os Estados Unidos disputar o cinturão intercontinental, e entrar no ranking.

Quero só uma oportunidade, recentemente, me coloquei a disposição em uma categória que nem é a minha, para lutar com Carlos Nascimento (Conhecido como Carlão e "Açougue"). Não quero prejudicar ninguém, não preciso comprar lutas e nem manipular resultados, tenho dinheiro e vivo bem, luto boxe porque ainda acredito nesta nobre arte, só queria que fosse mais justo.